Tim Lopes - Um pedido ao Cristo Redentor

Queria saber de você, meu, nosso Cristo Redentor, quanto tempo mais ficará de braços abertos diante daquilo que os nossos olhos ardem ao ver; já não agüentam mais. Estamos todos andando pra trás no progresso, ou será que o progresso é andar pra trás? Esse andar pra trás a que me refiro é um andar físico mesmo. Andamos sempre na direção das nossas casas, nos refugiando de baixo dos nossos cobertores — alguns não tem nem a sorte de tê-los e se refugiam dentro de marquises ou caixas de papelão, pedindo dinheiro para a cola de sapateiro que os mantêm de pé. Estamos de volta ao Estado de Natureza do homem-lobo-do-homem. Já não agüentamos mais, meu Cristo de São Sebastião do Rio, que já não é de Janeiro, mas de sangue.

Polícia? Não sabemos mais nem quem são e o que fazem. Não quero entrar num papo piegas de que deveríamos esperar mais de seu trabalho pela cidadania; já não acredito mais em cidadania. Veja, Cristo, no que nos transformamos! Que animais sujos, que matam uns aos outros, sem meios porquês, nos tornamos! E você continua aí de cima do monte, imponente como sempre, mas no teu olho já não vejo esperança; está cansado também.

Mas se for assim agora, então como será daqui pra frente? Como vou realizar meu único sonho dos meus débeis 20 anos? O sonho de ter um filho que se pareça comigo no que for de bom e que seja melhor que eu no que tenho de pior. Pra que terei este filho? E como? Não posso ser tão cruel a ponto de botar mais um enclausurado nessa selva. E eu continuo perguntando, por quê?

Eu sei que de nada vale esse texto idiota. Sei que não tem valor um texto só de perguntas que não podem ser respondidas. Isto porque, eu sei que sou besta de ficar esperando que você dessa da sua condição de pedra para nos dar uma resposta. Ou pelo menos que feche os braços que sempre estiveram abertos e cruze-os, como nós cruzamos, em protesto por essa vida absurda que entope as nossas artérias. Mas sei que não, que nada disso vai acontecer e você vai continuar a ver tudo daí de cima, cada vez mais triste e, no máximo, cada vez mais curvado de cansaço. Será que você também se rendeu? Às vezes tenho loucos pensamentos que me fazem querer morrer logo, antes que fique tudo ainda pior. Talvez porque eu não tenha coragem e nem estômago para ver algo pior.

Por último Cristo Redentor, queria poder saber uma coisa que já sei que você vai silenciar. Me diz quantos pais de amigos meus eu ainda vou ter que ver morrer? E quantos amigos meus eu vou ter que encontrar depois que seu pai morreu de uma morte terrível, sem poder falar nada, porque qualquer coisa que eu falasse seria pouco? Porra, Cristo! Eu já não tenho mais ninguém que possa me responder isso, só me resta você! Vi ontem esse meu amigo e foi foda; não sabia o que falar e não falei nada. Ele sim, falou pra burro, como que se falasse com o seu velho que lhe foi tirado na marra. Dizia que não ia se perder, que ia se manter na linha como queria seu pai. E o mais incrível era que ele falava comigo, mas não me olhava nos olhos. Não por rudeza, mas sim porque, na verdade, ele não falava comigo; falava com seu pai. E eu olhava e tentava pensar. Chorei disfarçadamente. Chorei de ódio e de raiva, mas eu não sabia de quem. Vi bravura no olhar desse meu amigo. Vi que ele ia fazer o que seu velho sempre pedira. Ele não ia se perder. Mas quem tinha se perdido naquela hora era eu.

Autor: Leonardo Marona - amigo do Bruno, filho do Tim Lopes; em complementação ao artigo de Viviane Reis

 

 

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