Tim Lopes - Só solidariedade pode tirar sociedade das trevas, diz filósofo


O filósofo e cientista polí-tico Deodato Rivera: desarmo-nia gera violência.

O filósofo e cientista político Deodato Rivera, 65 anos, acredita na pedagogia do encantamento para a criação de uma nova humanidade pacífica, digna e solidária. Pesquisador em felicidade, criatividade e mistérios da vida, o ex-exilado político dos duros tempos da ditadura militar, esteve essa semana em Campinas participando de um curso de capacitação de professores de 29 escolas da rede estadual de ensino. Os professores integram o Programa Cuidar. É um programa que visa promover, junto às redes de ensino fundamental e médio, um projeto de educação baseado na cultura e na ética de amor à vida. O programa será implementado pela Modus Faciendi, uma organização não-governamental de Belo Horizonte, especializada em projetos e programas voltados à cultura da não-violência.


Na sociedade industrial,
o nível de felicidade é baixo. As pessoas têm a ilusão de que ter bens é que é a felicidade. Se os bens não são vistos como
meios, mas como fins, a felicidade é ilusória

Nesta entrevista ele não fala do exílio no Chile entre 1965 e 1973, nem do tempo em que passou na Noruega como pesquisador do Instituto de Pesquisa da Paz, e nem do período que passou em Portugal logo após a Revolução dos Cravos. Aqui, ele fala de seu trabalho em desenvolvimento humano integral e da ciência que desenvolveu e a qual deu o nome de ética biofílica. Traduzindo: amor à vida.

Por onde deve começar a mudança que a sociedade necessita para ser feliz? Pela criança?

Sem dúvida. Para essa grande transformação, para esse salto quântico da humanidade, as gerações de agora precisam ter táticas favoráveis a uma transformação que só as novas gerações poderão fazer. E isso exige uma mudança de consciência. Primeiro, do que nós somos. Nessa palestra que fiz comecei com o conceito de desenvolvimento. O que se diz é que desenvolvimento é ter coisas, ampliar número de máquinas, equipamentos. Mas esse conceito de desenvolvimento é muito pobre e as vezes ele é contraditório. Ao invés de progresso humano, ele cria progresso material e isso cria uma degeneração.

Como assim uma degeneração?

Por que nesse desenvolvimento o valor principal é o dinheiro, o deus é o dinheiro, é o consumo. Coisas desnecessárias e muitas vezes efêmeras. O ser humano não está no centro. O que está ali deveria ser os valores meios e não os valores fins. A produção é um valor meio, ou seja, é uma produção para fazer o ser humano feliz e não para degradá-lo. Nesse tipo de sociedade violenta há uma degradação cultural e infelicidade coletiva. Na sociedade industrial, o nível de felicidade é baixo. As pessoas tem a ilusão de que ter bens é que é a felicidade. Se os bens não são vistos como meios, mas como fins, a felicidade é ilusória. Você perde o valor relacional. Que adianta ter três carros na garagem e não se relacionar bem com os filhos, com a esposa. A relação é que é fundamental.

E onde é que se aprende isso?

Um dos grandes fatores de transformação pode ser uma mudança de consciência nos meios de comunicação, nas instituições e nas pessoas que trabalham na profissão de comunicador.

O senhor não acha um tanto utópico o discurso da não-violência?

Visto de um lado parece utópico. Mas não é utópico quando exercido e praticado. É um salto de qualidade. Quando você enfrenta o fogo com fogo, você só tem o fogo. Mas quando você enfrenta o fogo com água você apaga o fogo. Há um equívoco de enfrentar a violência com violência, com ódio, com rancor.


Há um equívoco de enfrentar a violência com violência, com ódio, com rancor. A sabedoria de Gandhi, por exemplo, e mesmo a de Jesus, está em
entender que a violência é um fenômeno humano

A sabedoria de Gandhi, por exemplo, e mesmo a de Jesus, está em entender que a violência é um fenômeno humano. Os animais não são violentos. Eles são o que são; eles são tão violentos como nós ao comer um bife. A diferença é que a leoa precisa destruir uma vida para poder garantir a sua vida. Ela não tem ódio da presa. O ser humano é que odeia. A fonte desse ódio está na nossa natureza desequilibrada. Quando não estamos em harmonia com a natureza, com nós mesmos e com as pessoas, é essa desarmonia que gera a violência. A não-violência é a busca da harmonia. Gandhi dizia que quando a dignidade e a sobrevivência está em jogo, a violência é válida. É covarde aquele que não luta para salvar a sua vida. Não se trata de não-violência utópica, mas de não-violência prática, política. A violência nos animais é instintiva, mas no nosso caso não: ela é trabalhada por uma natureza pervertida que pratica violência além daquela necessária para a sobrevivência. O direito à violência protetora da vida todo mundo tem. Mas há um limite.

Mas o senhor não acha que, em uma sociedade competitiva como a nossa, a violência é parte do jogo da sobrevivência?

Nem todos estão matando para ter acesso aos bens de consumo. Uns estão estudando, outros trabalhando, procurando crescer. Claro que há alguns que estão desesperados. São como os terroristas em processos políticos. É o desespero que leva a esse tipo de ação violenta. A sociedade tem brechas. Há uma escolha. Por mais desesperada que seja a situação, sempre há uma escolha

O senhor diria que a sociedade brasileira está mais próxima do desespero do que da felicidade?

Sem dúvida. De um lado está a degradação e de outro a plenitude. Nós fazemos a escolha entre esses dois hemisférios. Essa ainda é uma era de trevas. No caminho da degradação temos a ignorância no lugar do conhecimento, a competição contra a cooperação, a opressão ao invés da liberdade, a odioatividade no lugar da amoratividade, a infelicidade contra a felicidade, a estagnação ao invés da criatividade, a desarmonia contra a harmonia, a injustiça contra a eqüidade e o poder da dominação contra o poder de serviço. Estamos em uma época em que vivemos predominantemente no hemisfério de baixo, rumo a degradação. De vez em quando aparece uma madre Teresa, Gandhi, Jesus, mas são exceções, milhares de anos. Saímos da caverna e estamos tentando subir, mas a maioria é liderada por valores e pessoas que lideram e levam para baixo. E nós, vamos continuar ignorando que estamos no hemisfério da degradação?

O senhor tem a fórmula para sair da degradação rumo a plenitude?

Muitas pessoas já mostraram o caminho. A humanidade sempre evolui assim, com base nos que mostraram o caminho, que mostraram que o centro não é a Terra, mas o Sol. São pessoas que fazem ruptura de padrões e paradigmas de olhar, sentir, agir, comunicar, educar. Há paradigmas de plenitude e paradigmas de degradação. Nós somos dirigidos, ainda, por paradigmas da degradação. O salto para isso é um salto de consciência. Cada um que ganhe consciência disso, que começa a trabalhar nessa direção, está sendo um agente de transformação.

A mudança individual não teria significado quantitativo muito pequeno diante do tamanho da necessidade de mudança global?

Tem uma história que ilustra bem isso. Um camarada, nos Estados Unidos, se hospedou em um hotel em um final de semana e acordou de manhã e foi caminhar na praia. Viu lá um sujeito fazendo movimentos com os braços, da areia em direção a água. Ficou curioso e foi lá ver o que ele estava fazendo. A maré estava baixa e havia milhares de estrelas do mar na areia. O sujeito estava pegando as estrelas, uma por uma, e devolvendo ao mar. O outro olhou e falou que aquilo era insensato porque eram milhares de estrelas. O sujeito pegou então uma delas, olhou para o curioso e disse: para esta, faz muito sentido. E jogou-a ao mar. Então, cada um que puder salvar uma estrela do mar ou a si próprio da degradação está ajudando a humanidade.

Como o projeto Cuidar entra nessa história?

O projeto está nessa direção, de favorecer que os adolescentes das escolas tenham a oportunidade de refletir sobre isso. Pelas técnicas do auto-cuidado e do cuidado do outro, da natureza, elevar-se, ganhar consciência de que é possível sair dessa degradação. E a idéia de desenvolvimento humano integral é a de aprendermos a desenvolver nosso potencial em todas as categorias que nos levam a uma vida em plenitude. A plenitude é sabedoria e felicidade. Estamos em um momento em que se diz que o conhecimento é o fator de elevação. Isso é falso. O conhecimento é meio. Fator de elevação é o uso do conhecimento. Temos que aprender a transformar o que hoje é fim, em instrumento. Dinheiro é instrumento, produção é instrumento. Se o dinheiro for fim ele é diabólico, ele conquista a pessoa, ele escraviza. Aí você tem esses meninos que estão roubando e matando dominados por esse poder diabólico da visão do dinheiro. É a sociedade que passa essa visão, porque nela você é valorizado pelo que você tem e não por aquilo que você é. Se o adolescente ganha a visão de que o importante é ser, independente da calça jeans estar furada ou o sapato rasgado, ele não precisa fazer violência. Ele vai tentar sobreviver, mas não de maneira violenta. Vai buscar na criatividade os meios de sobrevivência

Só que o poder do mercado é infinitamente maior do que o do professor em sala de aula ou mesmo da família.

A questão é que é preciso viver isso, tem que pregar a não-violência. Eu, por exemplo, na minha vida pessoal, não sou dominado pelo mercado e nem pela comunicação degradante. Estou fazendo uma experiência boa: há quatro anos eu não leio jornal, porque cheguei a conclusão que há um viés negativista, que é mostrar principalmente o negativo. Isso poderia ter uma justificativa do tipo mostrar o negativo para as pessoas se sensibilizarem, se unirem. Você lê: tragédia no Irã - trens se chocam e morrem tantos. Se você com o sentido de mobilizar as pessoas para que ajudassem os sobreviventes, ainda tudo bem. Mas não é. As grandes tragédias é que atraem. A pessoa que está fazendo transformação, que luta pelas pessoas, essa ganha menos espaço. Mostrar o que está dando certo é piegas. Parece que está fazendo o endeusamento. Aí parei de ler os jornais. Quando acontece uma coisa muito importante a minha mulher vai me dizer, alguém vai me falar. Eu uso a Internet, os meios de comunicação modernos para crescer, me elevar, para poder viver em plenitude. Por isso, estou atraído pelas flores. E não é utopia. Eu acho firmemente que é possível mudar a sociedade, transformar as pessoas. Se não tivermos essa esperança nós estamos condenados.

MARIA TERESA COSTA
teresa@cpopular.com.br

(Correio Popular)

 

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