Tim Lopes - O estado rendido ao terror.

É possível que o cidadão cotidianamente sitiado pela insegurança se indague por que a imprensa reage tão fortemente indignada frente ao desaparecimento de um jornalista e não faz o mesmo ante o sumiço de tantos cujas trajetórias são interrompidas todos os dias quando tentam ir ao trabalho ou voltar para casa.

Primeiro, a razão mais humana e imediata: pela proximidade. Quem algum dia trabalhou com Tim Lopes - dividimos a mesma redação nos anos 80, no Jornal do Brasil - sabe que seu foco profissional sempre foi aquela gente que, anônima, já fez do risco de vida companhia permanente.

Corajoso de dar arrepios, Tim nunca viu razões para render temor ou reverência ao crime. Numa época em que era moda entre a elite mais intelectualizada (jornalistas inclusive) glamourizar do traficante ao banqueiro do bicho - hoje categorias sinômimas -, Tim Lopes jamais foi dado a esses equívocos. Dono, portanto, da noção perfeita de que à marginalidade não se pode reservar festejos sob pena de incentivá-la e, ato contínuo, banalizar seus malfeitos.

Segunda razão que confere especificidade e gravidade mais agudas ao desaparecimento de Tim Lopes em pleno exercício da busca de informações: o avanço do crime sobre mais um - dos últimos que restavam - instrumentos de defesa da sociedade, a imprensa.

De um lado, o choque pela constatação de que o narcotráfico se estratifica como um Estado não apenas paralelo, mas autoritário e cerceador da liberdade de expressão. De outro, o baque de enxergar com todas as cores e nuances do que são capazes os novos governantes de fato.

Na ditadura havia porões de tortura. Hoje há grutas de incineração no alto de morros cínica e cruelmente chamadas "microondas". E a denominação é repetida na televisão por policiais, como se a conexão entre o instrumento e a atividade fosse tão perfeita que, por si só, justificasse a naturalidade de tratamento.

Já houve dia em que traficantes convocavam a imprensa para entrevistas nos morros e, no lugar de chamar a polícia, lá íamos nós - qual seres instalados num patamar acima da Humanidade e seus valores - ouvir, respeitosos, o que tinham a nos dizer os encapuzados e fotografá-los de metralhadora em punho, cuidadosamente protegendo-lhes as identidades.

É terrível a cena? Pois era comum e bem aceita naqueles tempos em que vivíamos a ilusão de que o mundo do crime era um mundo à parte, a ser "reportado" aos cá de fora.

Pois muito bem, esse universo nos explode tardiamente à cara, nos desaba às cabeças, nos soterra as almas, nos comprime as veias, nos une numa desesperada esperança de que Tim ainda possa estar metido em mais uma das suas e que reapareça cheio de picardia no sorriso de dentes pequenos, trazendo dentro da câmera da TV Globo mais um prêmio por excelência em jornalismo.

Mas se não for nada disso, ou ainda se assim for e Deus nos der mais uma chance, não é possível que mais um dia sequer se passe sem que o Brasil perceba que está no cativeiro. Somos todos reféns de uma violência inexplicável, desmedida, descabida, sem limites. A ponto de levar o secretário de Segurança Pública do Rio, Roberto Aguiar, ao choro quase convulsivo perante as câmeras.

O secretário emocionou-se ao falar de Tim, com quem deve ter convivido depois de transferido de Brasília para o Rio, ou até antes disso. Mas ali, naquela cena do Jornal Nacional de quinta-feira, Roberto Aguiar não chorava apenas pelo jornalista desaparecido em combate, mas pela incapacidade do Estado de se contrapor ao inimigo como combatente à altura.

Era a imagem pronta e acabada do terror e da rendição. Igualzinho a qualquer um de nós. Tão impotente quanto. Ou talvez até mais porque, policial e experiente, com toda certeza tem uma noção mais aproximada da escuridão do buraco cujo tamanho ainda estamos por sentir as dimensões.

Dora Kramer

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