Tim Lopes - Nota da Central Globo de Jornalismo

É com um profundo sentimento de pesar e, ao mesmo tempo, de revolta e indignação que a TV Globo comunica: a polícia confirmou hoje (ontem) oficialmente que o repórter Tim Lopes, um de seus jornalistas mais premiados, foi de fato brutalmente assassinado durante a realização de uma reportagem sobre bailes funks nos subúrbios do Rio de Janeiro, domingo, dia 2.

Há três semanas, moradores do bairro da Penha denunciaram a existência de um baile funk, com consumo de drogas e sexo explícito, na favela de Vila Cruzeiro, promovido por traficantes do morro, para o qual eram aliciadas meninas menores de idade. Os traficantes armavam um pequeno parque de diversões próximo à entrada da favela para atrair crianças e, assim, evitar que policiais entrassem atirando no caso de invasão do morro. O fato teria sido também denunciado à polícia diversas vezes, sem resultado.

Os moradores disseram a Tim Lopes que temiam pela degradação moral de suas famílias e se disseram impotentes diante do poder armado dos traficantes e da falta de ação da polícia. Tim esteve na região quatro vezes, duas sem microcâmeras e duas vezes com o aparelho, a última delas no domingo, dia 2.

Domingo passado, Tim ficou de encontrar-se às 20h com o motorista que o acompanhava e estacionara longe da favela. Àquela hora, Tim apareceu e disse ao motorista que iria se atrasar porque ainda não considerava encerrado o seu trabalho. Marcou novo encontro para as 22h, mas não mais apareceu. Segunda-feira, de manhã, a emissora comunicou o seu desaparecimento às autoridades. No meio da tarde, uma equipe de policiais encontrou, no alto do morro, fragmentos de corpo carbonizado ao lado de pedaços de fita de oito milímetros, de um tipo, no entanto, que não é usado pela emissora. O restos mortais foram levados imediatamente para o Instituto Carlos Éboli para identificação e, depois, transferidos para o Laboratório Sonda, da UFRJ, para a realização de exames de DNA, que, no entanto, só ficarão prontos em 15 dias.

Hoje (ontem), policiais da 38 Delegacia de Polícia, de Brás de Pina, prenderam dois suspeitos de terem envolvimento no assassinato de Tim. Eles relataram, com detalhes, toda a selvageria ocorrida, mas negaram que tenham participado diretamente da ação. Disseram que o traficante Elias Maluco teria executado Tim pessoalmente. A Justiça chegará à verdade.

Tim Lopes, de 51 anos, era um dos jornalistas mais brilhantes de sua geração. Depois de uma carreira vitoriosa nos jornais O GLOBO, “O Dia” e “Jornal do Brasil”, Tim entrou na TV Globo no dia 1 de março de 1996. Ele começou como produtor do Fantástico e quatro meses depois foi remanejado para a Editoria Rio. Além de trabalhar na Rio, Tim produziu reportagens investigativas para todos os jornais da TV Globo. Pela Editoria Rio, comandou a equipe que fez a série “Feira das Drogas”. Com este trabalho, exibido no “Jornal Nacional”, a equipe da Globo conquistou o primeiro Prêmio Esso de Telejornalismo de 2001. Sua última grande reportagem na Globo foi uma série sobre os maus tratos que pacientes recebiam de clínicas para recuperação de drogados, um trabalho de meses, durante os quais Tim se internou em diversos estabelecimentos para provar o péssimo tratamento dado às vítimas.

O brutal assassinato de Tim Lopes deixa consternados todos nós, seus companheiros de trabalho, e todos os jornalistas brasileiros e cidadãos de bem desse país. Neste momento, nossos pensamentos vão especialmente para a família de Tim que tem toda a nossa irrestrita solidariedade e apoio.Tim morreu em pleno exercício da profissão que tanto amava, na defesa de uma população que vive, impotente, sob o terror do tráfico e do crime organizado. O jornalismo investigativo tem prestado um inestimável serviço ao país, com a denúncia contundente de crimes, corrupção, prevaricação de autoridades e serviços mal prestados aos cidadãos. Seja usando as técnicas usuais da apuração jornalística ou se valendo de aparatos eletrônicos, como uma microcâmera de vídeo, no caso da Globo, ou microcâmeras fotográficas ou microgravadores, no caso de jornais, revistas e emissoras de rádio, grande parte da imprensa brasileira tem se dedicado a esse trabalho. Um trabalho que ressalta, talvez, o lado mais nobre do jornalismo: empenhar-se com tenacidade, mas dentro de limites rígidos que minimizem os riscos, para revelar os lados obscuros de nossa sociedade. O único objetivo é torná-la mais humana e mais justa. Nós temos certeza de que mesmo diante deste atentado a imprensa brasileira não abrirá mão do seu papel. Nós, da Globo, continuaremos firmes neste propósito.

Tim era um apaixonado pelo jornalismo investigativo e se orgulhava dos resultados positivos de cada denúncia que fazia. Não permitamos que sua morte tenha sido em vão. Que sirva, ao menos, de alerta para que as autoridades dêem um basta definitivo à violência e à criminalidade. Nós vamos cobrar.
CARLOS HENRIQUE SCHRODER é diretor de Central Globo de Jornalismo.

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